Data centers: Brasil pode perder espaço para o Paraguai?

Data centers: Brasil pode perder espaço para o Paraguai?

Enquanto o mundo digitaliza tudo o que pode digitalizar, uma disputa silenciosa ganha força na América do Sul. Brasil e Paraguai compartilham Itaipu, uma das maiores hidrelétricas do mundo, mas seguem caminhos distintos para transformar energia, conectividade e regulação em vantagem competitiva na atração de data centers, inteligência artificial e novos investimentos em infraestrutura digital.

Segundo levantamento do Data Center Map, o Brasil ainda lidera em data centers na América Latina, com mais de 200 unidades em operação e 42,1% das instalações da região. No entanto, o avanço do Paraguai, impulsionado por energia hidrelétrica abundante e projetos ligados à IA, acende um alerta: a liderança não se mantém apenas pelo tamanho do mercado, mas também pela capacidade de criar um ambiente competitivo para a próxima fase da economia digital.

O Brasil lidera em data centers, mas ainda deixa dinheiro na mesa

O Brasil já ocupa uma posição relevante no mapa global de data centers e reúne atributos difíceis de ignorar: mercado consumidor expressivo, alta demanda por serviços digitais, matriz elétrica majoritariamente renovável e localização estratégica na América Latina. Portanto, o desafio não está na ausência de potencial, mas na capacidade de transformar essas vantagens em mais investimentos, mais processamento local e maior competitividade para a infraestrutura digital brasileira. 

No entanto, esse protagonismo convive com uma contradição expressiva: cerca de 60% das cargas digitais nacionais ainda dependem de serviços processados no exterior, segundo diagnóstico do Ministério da Fazenda. Esse cenário contribuiu para um déficit de US$ 7,1 bilhões na balança de serviços de Telecomunicações e Computação em 2024, com maior peso da importação de serviços de processamento e armazenagem de dados. Em outras palavras, o Brasil produz tecnologia, mas ainda terceiriza boa parte do processamento que sustenta sua própria economia digital.

A vantagem que poucos países têm: energia limpa em abundância

Antes de falar nos obstáculos, é preciso reconhecer o ativo mais estratégico do Brasil nessa disputa: sua matriz elétrica. Segundo o Ministério de Minas e Energia, 88,2% da eletricidade brasileira vem de fontes renováveis. Portanto, o país ocupa uma posição rara no mundo para atrair empresas que precisam de processamento de dados em larga escala e, ao mesmo tempo, buscam reduzir sua pegada de carbono global. 

Projetos como o megadata center de 300 MW no Complexo do Pecém, no Ceará, mostram o que essa combinação de escala e sustentabilidade pode gerar na prática. O empreendimento, associado à Casa dos Ventos, prevê novos parques eólicos e solares dedicados ao fornecimento de energia para a operação. Para hyperscalers e grandes corporações que respondem a metas ESG, o Brasil não é apenas uma opção: é um dos mercados com maior potencial ambiental e energético para a expansão da infraestrutura digital. 

Não por acaso, o país foi escolhido como ponto de partida de uma coalizão global de capacitação de talentos para data centers, liderada pela Equinix Foundation, com participação de organizações como Generation, Cisco, ODATA e Vertiv. As primeiras turmas estão previstas para junho e outubro de 2026, reforçando que a disputa por infraestrutura digital envolve energia, capital, tecnologia e também formação de mão de obra especializada. 

Data centers no Brasil: o entrave da tributação

Apesar de todo esse potencial, o Brasil ainda enfrenta um obstáculo concreto e bem documentado: a operação de data centers no país é, em média, 30% mais custosa que no exterior, principalmente por causa da tributação sobre equipamentos de tecnologia da informação e comunicação. Esse diferencial coloca o país em desvantagem na disputa por projetos que, uma vez decididos, raramente mudam de localização.

Na prática, esse custo adicional aumenta o risco de o Brasil ver investimentos migrarem para outras jurisdições, inclusive dentro da própria América Latina.

A resposta do governo: o REDATA

Em setembro de 2025, o governo federal editou a Medida Provisória 1.318/2025, instituindo o REDATA (Regime Especial de Tributação para Serviços de Datacenter). A iniciativa previa a suspensão de tributos federais na compra de máquinas, equipamentos e componentes destinados à implantação ou ampliação de data centers no território nacional. 

Como a MP perdeu validade em fevereiro de 2026, o tema passou a tramitar por meio do PL 278/2026, aprovado pela Câmara dos Deputados em 24 de fevereiro e enviado ao Senado. O projeto ainda aparece no Senado como “em tramitação”, com último local no Plenário do Senado Federal. 

Para acessar os benefícios, as empresas precisam cumprir contrapartidas, como atender a critérios de sustentabilidade, suprir sua demanda de energia por fontes limpas ou renováveis e investir em pesquisa, desenvolvimento e inovação. O texto do PL também prevê vigência de cinco anos para os benefícios e incentivos do REDATA. 

Data centers no Paraguai: outras cartas na disputa

Enquanto o Brasil tenta estruturar incentivos fiscais, o Paraguai já compete com energia barata, carga tributária menor e um ambiente mais simples para investimentos intensivos em eletricidade. A energia hidrelétrica proveniente de Itaipu tornou o país um polo emergente para infraestrutura digital de alta demanda energética. Isso tem atraído empresas interessadas em custos operacionais reduzidos e energia renovável em larga escala. 

O consumo de energia do Paraguai cresceu 18% em 2024, em um movimento associado ao avanço de data centers, inteligência artificial e criptomineração. Entre os casos mais relevantes estão a HIVE Digital Technologies, que iniciou uma operação de 100 MW em Yguazú e anunciou expansões adicionais. Além da Penguin, que informa capacidade de 100 MW em infraestrutura próxima à usina de Itaipu. O governo paraguaio também avança com um data center estatal dentro do Programa de Apoio à Agenda Digital. A iniciativa, financiada pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento, busca fortalecer a infraestrutura tecnológica pública.

O presidente Santiago Peña também tem defendido o uso da energia renovável do país como base para uma nova etapa de desenvolvimento tecnológico. A parceria com Taiwan para desenvolver infraestrutura de inteligência artificial reforça essa ambição. Mostra que o Paraguai tenta transformar excedente energético em posicionamento estratégico na economia digital global. 

Itaipu no centro do tabuleiro geopolítico

A disputa entre Brasil e Paraguai ganha uma dimensão ainda mais estratégica quando se observa o que está acontecendo com a usina de Itaipu. Em 2024, o Brasil consumia 69% da energia da usina, enquanto o Paraguai ficava com 31%. Mas essa equação está mudando. 

Estimativas da própria Itaipu apontam que o Paraguai pode atingir o consumo de 50% da energia da usina até 2035. Impulsionado pelo crescimento da demanda energética de setores como data centers, inteligência artificial e mineração de criptomoedas. O crescimento superior a 14% no consumo de energia registrado pelo país em 2024 reforça essa tendência. 

Essa mudança pressiona diretamente o planejamento energético brasileiro. Afinal, qualquer aumento expressivo na demanda paraguaia reduz a energia excedente atualmente vendida ao Brasil, justamente em uma fonte relevante para o Sistema Interligado Nacional. 

Em maio de 2025, o tema ganhou uma dimensão geopolítica inusitada. Na ocasião, Marco Rubio declarou no Senado dos EUA que a energia excedente do Paraguai em Itaipu poderia alimentar projetos de inteligência artificial. A declaração evidenciou que a disputa por infraestrutura digital na região vai muito além de uma briga comercial entre dois vizinhos. 

O que está em jogo: soberania digital

Em 2025, a América Latina somava 877 MW em data centers. Até 2030, esse volume pode chegar a 2,6 GW. Quem capturar parcela relevante desse crescimento colherá vantagens estruturais por décadas, incluindo empregos qualificados, arrecadação fiscal e maior soberania no processamento de dados. 

O Brasil reúne ativos relevantes para liderar esse processo: tamanho de mercado, matriz energética renovável, mão de obra qualificada e capacidade industrial. Mas liderança potencial não é o mesmo que liderança conquistada. A aprovação do REDATA é um passo importante para o Brasil capitalizar essa oportunidade. Além disso, o país precisa de um marco legal sólido e de um ambiente competitivo e previsível. Sem isso, projetos bilionários podem migrar para mercados concorrentes na própria América Latina.

A AbraCloud acompanha de perto essa disputa

A AbraCloud (Associação Brasileira de Infraestrutura e Serviços Cloud) acompanha com atenção cada movimento dessa disputa. Representando cerca de 50 empresas de hosting e infraestrutura cloud, a associação defende condições competitivas para o setor no Brasil. Além disso, atua por um ambiente regulatório mais seguro e favorável ao crescimento da infraestrutura digital nacional.

A AbraCloud acompanha de perto temas como REDATA, marco legal de data centers e atração de investimentos para o Brasil. Mais que isso: leva ao debate setorial, porque o futuro da infraestrutura digital brasileira é, também, o futuro das empresas que a constroem. Quer acompanhar essa e outras discussões que moldam o setor? Acompanhe a associação que representa quem constrói a nuvem brasileira.

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