Hardware mais caro: o papel da IA por trás da alta

Hardware mais caro: o papel da IA por trás da alta

SSD, computador, console e cartão de memória ficaram mais caros em poucos meses. Ao mesmo tempo, a expansão da inteligência artificial aumentou os investimentos em data centers e pressionou a cadeia de produção de hardware. Por isso, uma explicação ganhou força: a demanda por chips usados em sistemas de IA estaria reduzindo a capacidade disponível para outros tipos de memória. 

Mas a história não termina aí. O aumento dos preços do hardware envolve uma disputa por capacidade de produção, uma indústria concentrada em poucas empresas e uma tecnologia que ganhou importância com a expansão da IA. Para entender essa relação, é preciso olhar para três tipos de memória: NAND, DRAM e HBM.

Por que o hardware ficou mais caro? 

Primeiro, a expansão dos sistemas de inteligência artificial aumentou a demanda por HBM, um tipo de memória de alta largura de banda desenvolvido para movimentar grandes volumes de dados com rapidez. Nesse cenário, a HBM ganhou espaço porque consegue transferir dados muito mais rapidamente do que uma DRAM convencional.

Enquanto isso, os fabricantes de memória precisaram direcionar parte de sua capacidade produtiva para atender à demanda por HBM. A mudança afetou outros tipos de memória, como a NAND, usada para armazenamento, e a DRAM, presente na memória de dispositivos eletrônicos. Samsung, SK Hynix e Micron produzem, juntas, mais de 60% da NAND e quase 90% da DRAM do mundo. De acordo com a análise publicada pelo Business Insider, parte dessa capacidade passou a atender ao mercado de IA.

Como resultado, a menor disponibilidade relativa de NAND e DRAM pressionou os preços desses componentes. Esse aumento chegou às empresas que fabricam computadores, consoles e outros dispositivos e, posteriormente, aos consumidores.

NAND, DRAM e HBM: qual é a diferença?

As três tecnologias cumprem funções diferentes dentro dos dispositivos e dos sistemas de inteligência artificial: 

  • NAND: funciona como armazenamento de longo prazo. Mantém os dados mesmo depois que o dispositivo é desligado. Por isso, aparece em smartphones, SSDs e cartões de memória para guardar arquivos, fotos e outros conteúdos.
  • DRAM: funciona como memória de curto prazo. Permite acessar rapidamente os dados durante o funcionamento de computadores, celulares, tablets e outros equipamentos, mas perde essas informações quando o dispositivo é desligado.
  • HBM: foi desenvolvida para oferecer uma largura de banda muito maior. Utiliza chips empilhados em uma estrutura tridimensional e movimenta grandes volumes de dados com mais velocidade do que uma DRAM convencional. Essa arquitetura também torna sua fabricação mais complexa e cara.

Portanto, a diferença entre essas tecnologias ajuda a explicar o impacto da IA sobre o mercado. Os data centers utilizam HBM para sustentar sistemas de inteligência artificial, enquanto os eletrônicos tradicionais dependem principalmente de NAND e DRAM. Ainda assim, os três tipos disputam capacidade dentro de uma indústria de memória altamente concentrada. 

Como a IA afeta o preço de outros chips?

A questão não envolve apenas quantos chips os data centers compram. A própria indústria também reorganiza sua capacidade para atender à demanda. Quando os fabricantes direcionam mais produção para HBM, deixam menos espaço para outros tipos de memória. 

Além disso, a escala da expansão da IA aumentou essa pressão. Google, Microsoft, Meta e Amazon gastaram, juntas, mais de US$ 1 trilhão na expansão de IA desde 2023. Em agosto de 2026, havia 2.228 data centers em planejamento ou construção nos Estados Unidos. 

Por isso, o impacto chegou ao hardware de consumo. Em junho de 2026, o Xbox elevou o preço do Series S de 512 GB de US$ 400 para US$ 500 e o modelo de 1 TB de US$ 450 para US$ 600. A Apple também atribuiu o aumento no preço do MacBook Pro à pressão sobre memória e armazenamento provocada pela expansão dos data centers de IA. 

Da mesma forma, profissionais que dependem de armazenamento enfrentaram custos maiores. Um fotógrafo entrevistado no vídeo relatou que um SSD Samsung de 4 TB comprado por US$ 285 em abril de 2025 custava mais de US$ 1.000 em 2026. O aumento não veio acompanhado de uma melhoria equivalente no produto. O cenário é de oferta mais pressionada, já que parte da capacidade de produção migrou para a HBM.

As fabricantes também podem estar por trás da alta?

Além da pressão provocada pela IA, outra hipótese entrou em cena. Em 25 de junho de 2026, 17 autores, entre consumidores e pequenas empresas, abriram uma ação coletiva em um tribunal federal da Califórnia contra Micron, Samsung e SK Hynix. Segundo a acusação, as três fabricantes agiram em conjunto para restringir a oferta de DRAM convencional, a memória de uso geral dos eletrônicos do dia a dia, e elevar os preços. Os autores sustentam que a migração para a HBM serviu de justificativa para reduzir a produção desses chips mais antigos.

No entanto, essa alegação ainda representa uma acusação, não uma conclusão sobre a responsabilidade das empresas. O próprio histórico do setor ajuda a explicar por que a hipótese ganhou atenção. No início dos anos 2000, Samsung e Hynix se declararam culpadas em um caso de combinação de preços de DRAM. A Micron admitiu ter participado do mesmo esquema, mas escapou da acusação ao cooperar com investigadores federais.

Assim, o mercado reúne uma forte demanda por memória para IA e uma produção concentrada em poucas empresas. A ação busca justamente esclarecer se as fabricantes também contribuíram para a alta dos preços.

Menos data centers poderiam reduzir os preços?

Enquanto a expansão da IA aumenta a demanda por memória, outra discussão ganhou força nos Estados Unidos: desacelerar a construção de data centers. Comunidades passaram a contestar novos projetos por seus efeitos ambientais e econômicos, enquanto governos locais adotaram medidas para limitar ou pausar construções. 

Nesse contexto, uma redução no ritmo de expansão dos data centers poderia diminuir a demanda por HBM. Se a procura cair, os fabricantes poderiam enfrentar menos pressão para direcionar capacidade produtiva à memória utilizada em sistemas de IA. 

Por exemplo, em julho de 2026, Nova York se tornou o primeiro estado americano a impor uma moratória sobre grandes data centers. Por decreto da governadora, o estado suspendeu por até um ano as licenças ambientais de novos projetos que consomem 50 megawatts ou mais de energia, enquanto define regras para esse tipo de empreendimento. A medida não garante uma queda nos preços das memórias, mas mostra como a expansão da IA já influencia decisões que ultrapassam o setor de tecnologia.

Hardware: o preço das memórias pode cair novamente?

Apesar da alta atual, o mercado de memória tem uma característica importante: funciona em ciclos. Períodos de demanda elevada e oferta insuficiente costumam provocar aumentos de preços e incentivar os fabricantes a ampliar a produção.

Depois, quando a capacidade supera a demanda, o excesso de oferta pode derrubar os preços. O setor já passou por esse movimento diversas vezes, e o mercado de memória pode repetir esse ciclo.

Portanto, a alta atual não precisa durar para sempre. Se os fabricantes aumentarem a capacidade ou a demanda por memória desacelerar, o mercado poderá caminhar novamente para um excesso de oferta e, consequentemente, para preços menores.

Hardware em transformação: o que observar daqui para frente 

No fim, a IA aparece como um fator importante na alta do preço das memórias, mas não é o único. A disputa por capacidade produtiva, a concentração entre fabricantes e o comportamento cíclico do setor também influenciam esse cenário.

Por isso, acompanhar o mercado de memória significa olhar além dos data centers. A mesma indústria que hoje direciona capacidade para sustentar a expansão da inteligência artificial pode, em outro momento, produzir chips em excesso e provocar uma nova queda de preços.

Para empresas que dependem de infraestrutura de TI, acompanhar essas mudanças ajuda a antecipar impactos sobre custos e planejamento. Acompanhe a AbraCloud para entender como as transformações no mercado de hardware podem afetar sua infraestrutura.

Últimas notícias

Nossos associados